quinta-feira, 10 de maio de 2018

Certos Sentimentos Residuais

10/05/2018 - 07:21

Dois fatores que eu afirmei no meu último texto se concretizaram: o meu dia, apesar de já ser tarde, ainda tinha muito tempo a ser percorrido; e também que haveria surpresas pela frente nas quais eu estava preparado.

Tenho notado de forma lenta que o meu isolamento, que a propósito não é de minha escolha, está se comparando em muitos aspectos à minha extrema solidão de quase duas décadas atrás. Pequenas percepções foram significativas para chegar a essa conclusão. O alvorecer de um novo dia começou a me incomodar; o anoitecer começou a me entristecer; e o meu organismo logo vai começar a reagir contra essas abruptas mudanças de rotina, mesmo que tediosas ao meu corpo. Claro, com o passar do tempo, antigamente, eu via o alvorecer de um jeito poético, inspirador. Era próximo a esses horários que eu mais escrevia e lia. Conseguia enxergar o mundo lá fora com um olhar puro e ingênuo. O que implicava em boas horas de sono. Preciso ressaltar também que nessa época eu não tinha basicamente nenhuma tecnologia a meu dispor. Era um leitor assíduo. Três livros por mês, todos emprestados da biblioteca da cidade - eram devorados. Aprendi muito nessa época, não posso negar. Estudei os mais variados tipos de coisas: de filosofia, passando pelo extinto uso da palavra filologia, até física quântica. Me emocionava com o romantismo de maneiras que até hoje não consigo entender. Li com sede todos os dez livros de Casanova, intitulado Memórias. Mesmo após anos, busquei comprá-los, mas acabei ignorando essa ideia em cima da hora, e infelizmente, preciso admitir, por motivos de precaução do meu coração apaixonado. Eu adorava rir e me surpreender com as aventuras de um libertino, filósofo e cristão. Suas histórias eram cômicas e muito reais, onde me diverti por um bom tempo trancafiado na minha antiga fortaleza de risos e choro.

Não sou uma pessoa que se importa com a modernidade. Aquele tipo de homem que se preocupa com o olhar alheio e deve estar sempre preparado para estar habituado visivelmente aos dias atuais. Claro que também não sou um desleixado, tenho minha vaidade, zelo por ela, porque é importante mantermos um equilíbrio do ambiente e do corpo, que é nosso templo e ferramenta nesse mundo. Mas o que me incomoda, generalizando, é o exagero na importância dos olhos aos que nos rodeiam. Acima de tudo eu defendo a naturalidade. Desde muito pequeno o meu fascínio pela espontaneidade se destacava. Isso eu trago até os dias de hoje, seja nas amizades, seja no coleguismo profissional, até nos romances passageiros e respeitáveis, por assim dizer. A doçura de ser você mesmo, de não ter vergonha de se mostrar por fora como é por dentro sempre me atraiu. Aos poucos eu fui ficando mais detalhista nessa questão, notando pequenas sutilezas guardadas muito bem, onde a vaidade era mais proeminente, descobrindo valores intrínsecos na personalidade que me deixaram perplexos de amor.

A rotina, ela sempre se força contra o fluxo natural do relógio, o que me tira o sono, metafórica e literalmente. E mesmo tendo passado longas horas estudando, pesquisando, de fato aprendendo, chega um ponto em que nada é suficiente para a minha mente. É com a mais pura sinceridade que digo que em muitos momentos de estudos quase incansáveis, eu sinto estar apenas mascarando a dor de ser solitário. Não vou sair gritando na rua que quero companhia em todos os seus modos, isso não me pertence a um bom tempo, e não sinto falta em si de tudo isso. Acredito, após um exame superficial de reflexões a respeito, que a alienação social é o problema. Você cresce brigando com tudo e todos se auto afirmando autêntico. Até que chega um dia que se espera ser doce, o dia em que você consegue deixar isso extremamente evidente. Por fim não parece ter sido o fechamento. É preciso intercalar muitas coisas para sermos considerados cidadãos saudáveis e parte interativa da sociedade - o que, por sinal, não me encaixo. Não fico triste, fico pensativo, me sinto enigmático nessas ocasiões onde os pensamentos e tentativas são frustrantes e tediosos.

Os motivos específicos que têm mantido minha mente um pouco mais ativa, longe da angústia e da tristeza, é que em parte eu tento canalizar certos sentimentos residuais em uma habilidade produtiva. Só ainda não achei o engate perfeito... ainda!

Nenhum comentário:

Postar um comentário